Boni: memórias profissionais escritas em apenas quatro meses
2011 ainda não acabou, mas já pode ser considerado o ano em que a Globo resolveu rever parte de sua história. Isso porque importantes registros sobre a emissora começaram a chegar às lojas. Há alguns meses, escrito por Joe Wallach, “Meu Capítulo na TV Globo”, pôs luz sobre a polêmica parceria entre o canal e os americanos da Time-Life e mostrou como seu modelo de negócio foi reestruturado. Da mesma maneira, o documentário “Roberto Marinho – O Senhor do Seu Tempo”, conta a história do patriarca das Organizações Globo, que praticamente se confunde a da televisão. No filme, produzido pela família Marinho, questões delicadas como o apoio ao Golpe Militar, de 1964, não ficam de fora. Agora, a história da maior emissora de TV do país é complementada pelas mãos do diretor que a transformou no gigante que é atualmente. José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, lança nesta quarta-feira (30), no Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, “O Livro do Boni” (Casa da Palavra, 464 págs., R$ 44,90). Em São Paulo, o evento ocorre no próximo dia 5, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, na Avenida Paulista.
De narrativa simples, a obra tem tom autobiográfico, mas tem as histórias contadas de maneira rápida, com capítulos curtos, quase como se fossem pílulas. Em sua maioria, os causos já foram contados aqui e acolá em depoimentos de quem viveu a história da televisão brasileira desde os anos 50, mas nunca foram reunidos num compêndio. Estão descritos os primeiros episódios da TV ao vivo e teleteatros, como o dia em que um figurante auscultou a cabeça de ator e disse que ele morreu de “comoção cerebral”. São histórias divertidas. Mas “O Livro do Boni” não é exatamente composto de amenidades. É um apanhado da trajetória profissional do diretor até culminar na reestruturação da Globo. São encontradas, portanto, memórias dos tempos em que ficou empregado no rádio e na publicidade. Há quem acuse a publicação de ser pouco pessoal – e, de fato, não há muita intimidade exposta -, mas poucos se questionam se a vida privada de Boni não se dava em sua maior parte no trabalho. Há várias sequências em que, mesmo nas horas de folga, acaba desenvolvendo ideias ao lado de companheiros como Daniel Filho e Armando Nogueira.
Passagens marcantes da dramaturgia nacional estão descritas com riqueza de detalhes. Caso da censura à primeira versão de “Roque Santeiro”, em 1975, depois que o autor, Dias Gomes, foi grampeado pelos militares. Ou as muitas manobras que fez para conseguir demitir a novelista cubana Gloria Magadan – com direito a relatos de que assediava os homens da TV. Para os que não viveram os anos 70, são uma aula de história os capítulos em que Boni relembra as brigas da Tupi, TV Rio e Excelsior. O conflito com Jô Soares – elegantemente ignorado por ambos quando o executivo foi ao talk show do apresentador na última segunda-feira (28) – também é contada. Nesse caso específico alguns momentos, como a proibição de Jô anunciar na emissora seu novo show passam batido.
A cada capítulo, um hábito nunca é deixado de lado: Boni faz questão de citar cada funcionário ou amigo que colaborou com alguma ideia. Acaba por tornar a leitura um tanto maçante em alguns momentos, mas também revela uma enorme gratidão para com seus colegas, traço de personalidade importante de ser percebido. Estão lá nomes como Manoel da Nóbrega, Jorge Adib, Walter Clark, entre centenas de outros. Aliás, o diretor é um homem afeito a listas. Faz questão de enumeras suasnovelas e minisséries favoritas, assim como enumera os autores que já foram adaptados para a teledramaturgia.
Apesar da narrativa amistosa e linguagem leve, há que se dizer que alguns errinhos de edição acabaram ganhando o papel. São poucos, mas há vírgulas e crases fora do lugar em algumas passagens, o que pode se justificar pela pressa com que o livro foi escrito – em apenas quatro meses. Com a grafia ocorre o mesmo. Betty Faria chega a ser chamada de “Beth” numa das legendas. Certamente algo para ser corrigido nas próximas edições, mas que não afeta o bom trabalho de Boni. Preciosismos importantes, mas que em nada diminuem a história do homem que esteve à frente da criação do “Jornal Nacional”, da fórmula que “sanduichava” telejornais entre novelas, e que ajudou a criar marcos do entretenimento nacional, como “Malu Mulher”, “Vila Sésamo” e “Que Rei Sou Eu?”.
Para “O Livro do Boni” ficar ainda melhor faltou abrir o baú das histórias mais “secretas”, faltou um pouco mais de “indiscrição”, no bom sentido da palavra. Mas que ninguém acuse Boni de café-com-leite. Honesto, já no primeiro capítulo ele avisa: “Não esperem nenhuma informação bombástica ou revelação de segredos dos bastidores ou das empresas, até hoje ocultos”. Quem sabe na próxima obra?
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